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Entrevista ao secretário de Estado da Educação PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Escrito por Pedro   
Quarta, 07 Setembro 2005 00:40

Melhorar as condições do 1.º ciclo do ensino básico é uma das apostas do Ministério da Educação e que passa não só pela generalização do Inglês aos alunos dos 3.º e 4.º anos, mas também pela comparticipação das refeições, alargamento dos horários de funcionamento e formação dos professores em Matemática.

Nesta entrevista - realizada antes de o primeiro-ministro ter revelado que o concurso de professores poderá ser válido por três ou quatro anos a partir de 2006 -, Valter Lemos, secretário de Estado da Educação, lamenta que ao fim de tantos anos de apoio comunitário o parque escolar deste nível de ensino ainda esteja no estado actual.
A generalização do ensino do Inglês no 1.º ciclo foi uma das primeiras medidas anunciadas pelo Governo, mas estava dependente do aparecimento de propostas. Quantas candidaturas ao financiamento do Estado receberam?


Muitas. Ainda não temos o número rigoroso porque a análise das candidaturas é feita a nível regional e os dados finais não estão apurados. O que posso garantir é que a resposta foi muito boa e o número de projectos envolvidos é muito superior ao objectivo que fixámos inicialmente e que era de abranger um quarto [duas mil] das escolas do 1.º ciclo.

Chegaram ao dobro do que estavam à espera?

Provavelmente mais do que isso. Mas é preciso esperar pelo resultado final, já que há projectos que poderão não obedecer aos critérios de qualidade.

Quando é que vai ser conhecida a lista de projectos seleccionados e as escolas envolvidas?

Na próxima semana [esta semana] o trabalho estará concluído.

Outra das principais alterações tem a ver com o alargamento do horário de funcionamento dos jardins-de-infância e escolas públicas do 1.º ciclo até às 17h30, de forma a que estejam abertas um mínimo de oito horas diárias.

Já tem uma ideia mais precisa de quantos estabelecimentos vão conseguir cumprir esta determinação?

Espero ter na próxima semana um número mais rigoroso. O alargamento do horário está muito dependente da colocação de professores, que ainda está a acontecer, e os problemas podem colocar-se no número muito elevado de estabelecimentos do 1.º ciclo isolados, onde só existe um professor.

Temos 4500 escolas com menos de 20 alunos e cerca de duas mil com menos de 10. Ou seja, mais de 50 por cento do total de escolas do 1.º ciclo têm um número reduzido de estudantes. As escolas em zonas isoladas estão excepcionadas pelo decreto-lei.

Onde estamos com alguns problemas por resolver é nos estabelecimentos de ensino que funcionam em horário duplo [turmas só de manhã e turmas só à tarde], em cidades onde o parque escolar está saturado. Mas espero que mais de metade das escolas funcionem já até às 17h30. E que, entre as que não funcionem, a maior parte diga respeito às que estão em zonas isoladas.

Qual vai ser a solução para essas escolas?

Durante a legislatura vamos concluir o reordenamento da rede do 1.º ciclo. A existência de escolas dispersas com um número reduzido de alunos tem todo o tipo de inconvenientes, desde prejuízos pedagógicos graves, problemas de socialização, de aproveitamento dos alunos.

Por isso, nem consigo perceber como é que esta situação se manteve durante tanto tempo. É evidente que estamos a falar de números de tal forma elevados que não conseguimos resolver com um estalar de dedos.

Qual é o objectivo? Encerrar todas as que têm menos de 10 alunos até ao final da legislatura?

Esperamos que em 2006/2007 já tenha encerrado a maior parte das escolas com 10 alunos e até ao final da legislatura uma boa parte das que têm menos de 20 alunos.

No caso das escolas do 1.º ciclo que funcionam em horário duplo, e sendo certo que a gestão destes espaços é da responsabilidade das autarquias, o ministério prevê ajudar de alguma forma no investimento que precisa de ser feito?

Já estamos a ajudar as autarquias na construção de novos equipamentos que têm o 1.º ciclo e o restante ensino básico, na questão do ensino do Inglês ou relativamente às refeições do 1.º ciclo. Algumas soluções passam por um reaproveitamento dos espaços existentes, outras passarão necessariamente pela construção de novas instalações.

O esforço tem de ser nacional, não é da responsabilidade de uma ou outra autarquia. O que não é aceitável é, no que respeita ao parque escolar, termos tido três Quadros Comunitários de Apoio e estarmos na situação em que estamos.

Mas têm um levantamento do que é preciso fazer no que respeita a instalações?

Temos uma noção, mas faltam ainda propostas de cartas educativas que já deviam estar feitas. Posso dizer que em 2006 vamos dar prioridade à construção de escolas. Para além das escolas dispersas, ainda há casos de instalações provisórias há 30 anos.

E quanto a recursos humanos? Tem a noção de que as escolas se organizaram de forma a ter as portas abertas mais tempo e com actividades a funcionar para as crianças?

Tenho esse feedback. O que está por trás destas medidas é a noção de escola a tempo inteiro, onde as crianças e jovens têm um atendimento completo em relação às suas necessidades educativas, como têm os alunos mais velhos. Faz algum sentido que tenhamos assegurado um sistema de refeições para o pré-escolar, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, secundário e ensino superior e deixado de fora o 1.º ciclo?

O que é que o ministério prevê fazer quanto às refeições?

Esta é uma responsabilidade das autarquias, mas nós dizemos o seguinte: nos casos em que as refeições não estão asseguradas, estamos disponíveis para colaborar, inclusivamente comparticipar a alimentação.

O que me faz confusão é assumirmos pacificamente há muitos anos que podemos ter condições no 1.º ciclo incomparavelmente piores em termos de qualidade de vida para as crianças do que nos outros níveis de ensino.

Agora as escolas têm de se organizar. Há muitas actividades que já eram oferecidas, de forma pontual, e que podem ser reconvertidas neste processo. Outras escolas têm agora a oportunidade de o fazer, porque têm o espaço físico e tempo.
Fonte: Público On-line